Estudo dirigido: Tecnologia, técnica, cognição e aprendizagem

 Tecnologia e Aprendizagem

    As leituras de Álvaro Pinto (2005) e Lévy (1993) permite compreender a tecnologia não como um conjunto de ferramentas externas, mas como uma dimensão constituinte da existência humana e do pensamento coletivo. Os autores desconstroem visões instrumentais e propõem uma nova compreensão da aprendizagem e da consciência.

    Para Pinto (2005), a tecnologia é sempre uma produção histórica situada em contextos sociais e econômicos específicos, desmontando a ideia de tecnologia universal e neutra e evidenciando que expressões como "era tecnológica" e "técnica em escala planetária" fazem parte de artifícios ideológicos. Pinto argumenta, ainda, que o conceito de técnica planetária ignora as massas privadas de acesso às tecnologias avançadas e serve aos interesses econômicos de centros produtores hegemônicos.

    Pierre Lévy (1993) dialoga com a visão de Pinto (2005) ao rejeitar a ideia de uma "Técnica" autônoma e cega que se impõe ao social. Ele afirma que as escolhas técnicas são, no fundo, decisões políticas e culturais disfarçadas de de "necessidades técnicas". Ambos concordam que a técnica não é neutra: para Vieira Pinto, ela é comandada pelo homem para o bem ou para o mal; enquanto que para Lévy, ela é uma "micropolítica em atos" que condiciona as formas de pensar e conviver.

    Segundo Vieira Pinto (2008), a tecnologia deve ser compreendida através do conceito de trabalho como atividade criadora. O autor afirma que a técnica não é um perigo em si, mas a "memória social do fazer novo", inerente ao processo de hominização e que a apropriação da tecnologia interfere na consciência crítica da seguinte forma: 1) Consciência Ingênua: Aceita a tecnologia como um fetiche ou um destino fatal, submetendo-se passivamente a "máquinas de governar"; 2) Consciência Crítica: Percebe a tecnologia como o resultado do trabalho humano e como um projeto de transformação da realidade. A apropriação consciente da tecnologia permite que o homem se reconheça como criador do seu próprio mundo, em vez de escravo da máquina.

    De acordo com Vieira Pinto (2008), a aprendizagem humana diferencia-se da animal por não ser apenas repetição, mas a capacidade de projetar e fabricar o novo. Aprender é a capacidade de encontrar novas regras de ação diante de contradições vividas no trabalho e na vida social. Não é acúmulo de dados, mas o desenvolvimento da capacidade de resolver problemas reais mediada pela técnica. Para o autor, o pensamento criador e a aprendizagem surge do enfrentamento de contradições objetivas no mundo material. Nesse sentido, Aprender é transformar a relação com o mundo: o sujeito deixa de ser passivo diante da natureza e passa a mediá-la pelo trabalho.

    Lévy complementa essa visão ao propor que as tecnologias são reorganizadoras da cognição. Na sua "ecologia cognitiva", o aprendizado não ocorre dentro de uma mente isolada, mas em um coletivo pensante homens-coisas. Enquanto Vieira Pinto foca na transformação da realidade pelo trabalho, Lévy foca na transformação do próprio sujeito que pensa com e através das tecnologias como o hipertexto e a simulação.

    A partir desse diálogo, a educação não pode ser vista como mera transmissão de conteúdos. Desse modo, a escola deve superar o modelo milenar de "falar/ditar do mestre" para se tornar um espaço de pedagogia ativa, onde os alunos se apropriam das interfaces digitais para criar e simular bem como a educação deve visar a uma "reapropriação mental do fenômeno técnico", capacitando cidadãos para decidirem coletivamente sobre os rumos do desenvolvimento tecnológico. Uma vez que, mais do que decorar algoritmos, o ensino deve focar na capacidade humana de inventar soluções e manejar instrumentos de pensamento (escrita, lógica, informática) como prolongamentos da inteligência coletiva. Dessa forma, é preciso reconhecer que o aluno contemporâneo é um "sujeito fractal", cujo pensamento é indissociável das redes digitais em que está imerso.

    Por fim, a partir da leitura de Pinto e Lévy consegui visualizar melhor como a aprendizagem se modifica em contextos diferentes, como também as modificações que acontecem no cognitivo e nas formação de pensamentos de forma coletiva e não individualizada (os jogos digitais podem ser utilizados nessa direção?). O desafio maior tem sido dialogar com a minha proposta de artigo, que se ramifica da proposta de minha dissertação. Todavia, se a aprendizagem se modifica em diferentes contextos, logo, a utilização de diferentes artefatos e ferramentas digitais podem proporcionar diferentes formas de aprender, construir pensamentos e de apropriação das habilidades necessárias no processo de alfabetização.

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